Publicação: Domingo, 03/06/2012 às 20:05:17 Atualização: 03/06/2012 às 19:59:42
DF é rota e destino do tráfico de cocaína
Carlos Carone
carone@jornaldebrasilia.com.br
Grandes quadrilhas especializadas no tráfico de cocaína operam no Distrito Federal e contam com ramificações em outras unidades da Federação, quase sempre alimentadas por conexões internacionais com os chamados barões da coca em países como Peru, Bolívia e Paraguai. É o que apontam investigações da Polícia Federal. Com o mercado considerado de baixa renda engolido pelo vício do crack, os traficantes apostam e faturam alto com o pó comercializado e aspirado nas altas rodas da capital da República.
Os 40 quilos apreendidos nas últimas semanas pela Delegacia de Repressão às Drogas (DRE) apontam para a ânsia das quadrilhas em alimentar o consumo. “O tráfico de cocaína é o maior e mais lucrativo negócio do mundo. No DF não é diferente e existem organizações criminosas usando Brasília tanto como rota de passagem como destino final da droga”, afirmou o delegado adjunto da DRE, Fernando Oliveira.
A apuração feita pelos federais identificou as principais rota de entrada do pó no DF, quanto custa cada grama de cocaína cheirada pelos usuários e onde ficam os pontos de consumo mais comuns.
Pedro Juan Caballero, no Paraguai, e a região do Chapare, na Bolívia, são as cidades de origem da cocaína que abastecem tanto o Distrito Federal quanto outras cidades de alto poder aquisitivo, como São Paulo. Os peruanos vendem o quilo da droga por cerca de US$ 2 mil, cerca de R$ 4 mil. Cidades como Cáceres, em Mato Grosso e Dourados e Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, são as principais vias de entrada de cocaína.
Produção
Depois de colhidas, as folhas de coca passam por uma série de transformações químicas até resultar na compacta pasta base. Muitas vezes, o refino – que a transforma no pó branco pronto para ser consumido – ocorre ainda em locais quase inacessíveis, como a selva de Vizcatan, uma região de 650km² no vale dos rios Apurimac e Ene. A região é a maior produtora de coca do Peru.
Antes de ser consumida no DF, a droga passa por um longo processo de “batismo” para render o dobro, ou até o triplo da quantidade, caso o traficante não queira vender um produto com alto teor de pureza. “Os peritos já analisaram amostras que continham apenas 25% de cocaína. O restante era formado por substâncias como pó de giz ou mármore, bicarbonato de sódio e até produtos usados para limpar piscinas”, explicou o delegado.
O que antes custava R$ 4 mil e pesada um quilo, passa a valer R$ 20 mil e pesar cinco quilos. No DF, cada grama de cocaína é vendido, em média, por R$ 20. A dose é semelhante à quantidade de sal que existe dentro de pequenos sachês quase sempre presentes sobre as mesas dos restaurantes. “Com essa quantidade é possível fazer três carreiras de cocaína, que pode acabar em pouco tempo, dependendo do grau de dependência do usuário”, disse Fernando Oliveira.
Parte dos integrantes das quadrilhas que atuam no DF é natural das cidades que fazem fronteira com os países produtores de cocaína. Convivendo próximo da produção, ganham o know-how necessário para comparar, refinar e transportar a droga até o consumidor final. A DRE definiu a atuação de cada integrante no esquema.
Em primeiro lugar na escala de importância está o produtor, que geralmente é o chefe da organização criminosa e muitas vezes sequer pisa em solo brasileiro. Em seguida aparecem os aliciadores, que devem recrutar os transportadores – em terceiro lugar na escala. Eles também recebem o nome de “mula”, por serem responsáveis pelo transporte da droga, cruzando fronteiras internacionais ou interestaduais até a cocaína alcançar o destinatário final. É o traficante que decide o que será feito com a pasta base ou o cloridrato de cocaína pronto para o consumo. “Pode vender no atacado ou no varejo, ou decidir se irá transformar a pasta base em crack e faturar com a venda picada”, disse o delegado.
Acesso pelas redes sociais
Enquanto pequenos traficantes de crack se expõem ao risco de serem presos e fazem o corpo a corpo em pontos de cidades humildes, repassando pequenas quantidades de pedras a moradores de rua, o tráfico de cocaína ganhou a rede mundial de computadores. O comércio corre solto nas redes sociais e o pó costuma ser consumido em festas privês mapeadas pela Polícia Federal no DF.
Segundo o delegado-chefe da DRE, Kel Lúcio, a realidade dos usuários de cocaína, em geral, é bem diferente de quem fuma pedras de crack em cachimbos improvisados em latas de alumínio. “É claro que há exceções. Também existe cocaína em Ceilândia e outras cidades mais humildes, mas os lagos Sul e Norte, Sudoeste e o Plano Piloto são o destino final de quase toda a cocaína consumida no DF”, afirmou.
As festas rave, que estão cada vez mais escassas e costumam ser um ponto comum de tráfico e consumo, tornaram-se festas fechadas e menos divulgadas em razão do monitoramento dos federais. Com o aperto ao cerco nos aeroportos contra as drogas sintéticas, exclusivamente produzidas em países europeus, a cocaína passou a embalar as festas brasilienses com mais frequência.
Repressão
Como a PF não conta com efetivo necessário para fiscalizar e barrar a entrada do pó quando cruza a fronteira brasileira, estourar os locais usados para estocagem passou a ser a solução para conter a distribuição. As investigações apontaram que municípios da Região Metropolitana passaram a servir como base de apoio para estocar a droga e enviá-la, em pequenas quantidades, às cidades do DF. “Sabemos que os traficantes tentam evitar o prejuízo de sofrerem apreensões, ainda mais pelo efetivo polícia que o DF possui. Desta forma, os carregamentos são fracionados e enviados em pequenas quantidades em um número maior de viagens”, ressaltou Kel Lúcio.
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